Filantropia x Responsabilidade Social

            Fazer o bem para outra pessoa é algo que já foi moda, mas por um tempo sumiu da mídia, ofuscado por uma avalanche de ideias individualistas e autocentradas, onde as pessoas foram incentivadas a colocar a si mesmas em primeiro lugar e, muitas vezes, desconsiderar a opinião alheia. Porém, a própria solidão do auto centrismo mostrou à humanidade que compartilhar e divulgar o bem faz bem! E foi nessa crescente onda de boas ações que as empresas se viram diante de um dilema: se ganhamos tanto com os lucros obtidos através das vendas de nossos produtos, será que devemos ajudar outras pessoas também?

            Algumas empresas começaram a praticar ações isoladas de caridade e ajuda humanitária, como forma de compartilhar parte dos lucros obtidos com os menos favorecidos. E o que era para ser algo discreto e beneficente, tomou rumos de ação de marketing, na medida em que as ações caridosas praticadas pelas empresas podiam ser espalhadas como notícias e incentivos ao consumo por parte dos consumidores que gostariam de ajudar alguém, mas não dispunham dos meios necessários para isso. O ato de comprar e consumir passou então a ter contornos de ação beneficente, na medida em que cada produto era responsável por gerar certa parcela de lucro para a empresa, lucro este que poderia ser revertido em projetos e programas de ajuda para os menos favorecidos.

            E então nos vemos hoje diante de outro dilema: afinal, qual a diferença entre filantropia e responsabilidade social? Será que todos os atos de filantropia praticados por uma empresa podem ser vistos como responsabilidade social? Ou será que os atos de responsabilidade social praticados por uma empresa podem ser vistos como ações filantrópicas?

            Filantropia é descrita, pelo Dicionário Houaiss[1], como “profundo amor à humanidade; desprendimento, generosidade; caridade”. Desta forma, podemos perceber que filantropia é o ato de ajudar alguém ou uma comunidade em específico, através de ações caridosas. Estas ações incluem ajudas financeiras e doações de objetos e outros itens de necessidade básica. A filantropia envolve sempre um forte senso de dever moral por parte de quem a pratica, seja pessoa física ou jurídica (empresa ou outra organização). Trata-se portanto de uma ação de assistencialismo, sem qualquer tipo de planejamento ou espera de resultados em troca.

            Por outro lado, a Responsabilidade Social pode ser definida como um conjunto de ações que visam promover a melhoria da qualidade de vida de determinados grupos de pessoas ou de uma comunidade, através de ações voltadas para a educação, produção e distribuição de renda, além de envolver também aspectos ambientais e sociais relacionados com a sustentabilidade e rentabilidade do negócio da empresa. Nota-se, portanto, que a Responsabilidade traz consigo um forte senso de dever cívico, no sentido de cuidar da sociedade e do meio-ambiente, não apenas o dever moral de fazer o bem para o próximo. A própria palavra responsabilidade[2] traz consigo a ideia de responder pelos seus atos ou pelos atos de outra pessoa. E é neste sentido que a empresa pode ser responsável, por responder pelos seus atos de produção e exploração dos recursos naturais e sociais de uma comunidade. Na medida em que a empresa utiliza a mão de obra existente na sociedade e se vale de seus recursos naturais para produzir seus produtos e serviços, ela passa a ter uma responsabilidade para com o seu entorno. E é exatamente aqui que a empresa pode atuar diretamente para minimizar os impactos de sua atividade. Como? Através de programas de treinamentos e educação para a comunidade, a fim de produzir mão de obra qualificada para ser absorvida pelo mercado, através de programas de manejo de resíduos, produção sustentável e preservação do meio ambiente.

            Se por um lado a Filantropia traz ajuda imediata a determinado grupo de pessoas, por outro, a Responsabilidade Social traz efeitos de longo prazo para uma comunidade inteira. Além do mais, a Responsabilidade Social visa a sustentabilidade e a sobrevivência da empresa no mercado, enquanto a Filantropia visa resolver problemas pontuais e emergenciais, não visando à sobrevivência do negócio nem a perpetuação da marca.

            Tanto a Filantropia como a Responsabilidade Social rendem hoje uma boa imagem para as empresas e são capazes de alavancar as vendas, considerando um público cada vez maior de consumidores que buscam empresas que “devolvem” parte dos seus lucros para a sociedade. Uma mesma empresa pode ter ações de filantropia e de responsabilidade social, pois uma não elimina a outra, nem exclui a necessidade e a possibilidade de se implantarem programas e ações específicos. De qualquer forma, cada empresa deve analisar o que é melhor para si: dar o peixe ou ensinar a pescar!

 

Priscilla Ramos de Moraes Braga

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Incongruências de Natal

“A Farmácia Fulana de Tal deseja a todos os seus clientes um ano cheio de saúde e alegria”

Estas foram as palavras que me fizeram rir por um momento e refletir pelo resto do dia. Como assim? Uma farmácia desejando a todos os seus clientes que tenham saúde? Não seria mesmo muita hipocrisia, considerando-se o fato de que a sobrevivência econômica das farmácias depende justamente da falta de saúde de seus clientes?

A princípio pareceu-me engraçado. Após rir um pouco, pareceu-me hipócrita! Desejar saúde quando no fundo se deseja que as pessoas estejam cada vez mais doentes… Como é forte o espírito natalino! Faz as pessoas desejarem algo que elas mesmas não desejam.

É fato que todos, em geral, desejamos que as pessoas sejam felizes, que tenham dinheiro, que tenham saúde e muitas alegrias. Mas isso não deveria ser desejado só uma vez por ano! Isso deveria ser desejado todos os dias… Afinal, a vida acontece todo dia! A vida não acontece uma vez por ano, no Natal ou no Ano Novo. A vida é agora, foi ontem, é hoje, será amanhã, independente do dia do ano em que estamos. E a parte realmente irritante do fim do ano é esse falso desejo moralista de boas coisas para todos, quando no fundo as pessoas apenas estão sendo egoístas, imaginando que desejando boas coisas para outras pessoas lhe trarão também boas coisas. A pessoa que te sacaneou o ano inteiro, tem a paúra de apertar sua mão, dar-lhe um abraço e dizer “Te desejo tudo de bom nesse ano que se inicia”. Então, né?! Deseja-me tudo de bom? Aja desta maneira! E teremos mesmo tudo de bom, não só eu, mas você também. Cabe aqui uma reflexão muito séria, por parte de cada um. O que eu tenho feito para que as pessoas tenham mesmo muita alegria, saúde e dinheiro? Será que eu sou a contribuição que o mundo precisa para se tornar um lugar melhor? Será que já venci meus próprios medos e preconceitos e passei a distribuir sorrisos e alegrias por onde eu passo? Ou será que sou apenas movido pelo tal espírito natalino, para não ser diferente das outras pessoas? Será que estou apenas jogando com o sentimento das outras pessoas para parecer uma pessoa boazinha?

E pensei sobre isso durante um momento… Até que veio-me novamente a propaganda da farmácia! E decidi fazer uma análise do ponto de vista de uma administradora de empresas, de uma pessoa preocupada com o marketing e com todas as suas implicações, sobretudo no que diz respeito ao neuromarketing, esse que mexe com cada um de nós de maneira muito sutil e subjetiva.

Seria esse um erro de marketing? Será que parecer hipócrita teria mesmo o objetivo pretendido? Será que desejar saúde quando se vive da doença pareceria muito sincero? Será que causaria comoção ou repulsa aos clientes?

Pensei por um momento que a pessoa que criou esta publicidade realmente não faz ideia do que está por trás do tema. Provavelmente foi só mais uma pessoa movida pelo sentimento natalino, contagiada pelo todo, impelida a desejar boas coisas a todos, sem fazer suas próprias reflexões sobre o tema. Mas isso não vem ao caso. A minha grande inquietação era no que diz respeito à credibilidade da publicidade. Afinal, uma publicidade errada pode manchar a reputação de uma empresa. Não acredito que a Farmácia Fulana de Tal estivesse preocupada com a sua reputação, considerando-se o conteúdo da publicidade. De qualquer forma, é algo que sempre deve ser analisado. Até que ponto a minha publicidade pode ajudar ou prejudicar a minha empresa?

Será que desejar saúde a todos foi uma jogada certeira ou mais um erro de marketing? Difícil dizer sem conhecer a pessoa por trás do marketing da empresa. Muito provavelmente foi só mais uma publicidade sem conteúdo algum, onde nada foi pensado, apenas foi dito. Mas não precisaria ser assim! Desejar saúde quando se vende a doença em comprimidos, pode ser sim uma grande jogada de marketing. Aliás, pode ser a melhor delas! O cliente não sabe que por trás da aparente hipocrisia, pode existir sim um mecanismo inteligente e sutil para alavancar as compras e gerar fidelização. O cliente não percebe que aquele simples desejo de que tudo seja melhor no ano novo gera dentro de si um sentimento de carinho, respeito e admiração, seja por quem for. O cliente não sabe que as suas carências são transferidas para essa simples frase, que no fundo não diz nada, mas significa tudo. Suas necessidades mais básicas e primárias são satisfeitas com um simples desejar de boas coisas. Todos nós estamos carentes de bons desejos, de sonhos, de bons sentimentos, de coleguismo, de sentimntos humanos. Estamos todos tão absortos neste mundo cruel e desumano que qualquer possibilidade de encontrar algo diferente disso nos encanta, nos deixa maravilhados… E esse é o princípio da fidelização. É o encantar, o maravilhar, o despertar de paixões, ainda que secretas e disfarçadas.

Um tiro que saiu pela culatra e acertou o alvo. Talvez esta seja a melhor definição para esta publicidade da Farmácia Fulana de Tal. Foi desejando a saúde, quando se precisa da doença, que a farmácia conseguiu emplacar, discretamente, um sentimento de segurança e carinho por parte de seus clientes. Obviamente que tudo isso foi feito sem nenhum tipo de estudo ou conhecimento de marketing. Mas funcionou! E é por isso que não se deve desprezar completamente o marketing informal, esse feito por pessoas sem preparo, sem grandes intenções. Às vezes a sabedoria popular sobrepõe-se à sabedoria dos livros! E isso é incontestável… Basta olhar o exemplo da farmácia.

Desejar tudo de bom tem o seu lado positivo, sobretudo no mundo secreto do marketing. Afinal, o marketing alimenta-se de mensagens nem sempre declaradas mas facilmente percebidas e sentidas pelas pessoas. E é exatamente isso que gera o lucro tão sonhado pelas empresas, não importa quais sejam os produtos ou serviços oferecidos.

E, por fim, voltando ao mundo humano, desejar boas coisas para outros tem o seu lado positivo. Afinal, é alimentando nossa mente com boas coisas que poderemos fazer o bem. Ainda que seja apenas por um momento, seria bom que todos desejassem mesmo o melhor para todo mundo e, acima de tudo, que agissem desta forma. Faça com que as pessoas vejam a verdade nas suas palavras, mostrando que suas ações são sinceras e humanas. Não seja só mais um impelido a dizer algo que não deseja ou não pode cumprir. Seja o “tudo de bom” que você desejou para todas as pessoas ao seu redor!

Vendas x Convencimento

O processo de Venda torna-se desnecessário quando o cliente está convencido de suas necessidades. O papel do vendedor moderno e do Marketing é atuar no convencimento do cliente, identificando suas necessidades e desejos e fazendo com que ele se aperceba destas necessidades. Vender ficou ultrapassado. As atuais necessidades do mercado vão muito além da simples venda . Convencimento é a palavra da vez!