Terminando 2013…

E lá se vai mais um ano… Chegando ao fim, dando seus últimos suspiros! E lá se vou eu… Terminando mais um ano, graças a Deus!

Ultimamente ando sem muitas inspirações para escrever. Vontade não me falta, mas por motivos pessoais preferi me abster da loucura frenética de colocar em palavras tudo aquilo que sinto. Me permiti por um instante ter momentos de silêncio e reflexão.

E estes momentos de silêncio são tão importantes quanto os momentos de prosa e conversação. São os silêncios que dão contorno às nossas palavras. É a quietude que deixa transparecer a beleza de nossa alma!

E assim encerro 2013, sem muito a dizer. Foi um ano difícil, inegavelmente difícil. Foram muitas mudanças, muitas perdas, muitas batalhas. Mas sobrevivi a todas elas e isso é uma grande coisa! Apesar dos pesares, cheguei ao final. E amanhã tudo começa outra vez, como se nada tivesse acontecido, mas como se tudo tivesse mudado.

 

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O lixeiro e o Neymar

          Nos últimos dias, vimos a população se manifestando, protestando, saindo para as ruas para exigir os seus direitos, para exigir mais dos governantes e para mostrar que já estamos cansados de tanta exploração e abuso social. Mas algo me deixou intrigada! Enquanto uma grande maioria se indignava com o dinheiro gasto na Copa do Mundo, pensei por um momento no exorbitante salário pago aos jogadores de elite, não só em nosso país, mas em tantos outros. E fiquei pensando “Por que ninguém reclama disso também?”.

          Enquanto os professores ganham salários miseráveis, os jogadores de futebol estão ganhando salários milionários, todos os meses, sem formação alguma. Mas contra isso ninguém quer protestar! As pessoas se importam muito com o que o governo faz com o dinheiro público. E acho isso válido! Mas será que não é hora de avaliarmos também a iniciativa privada? O que as empresas privadas fazem com o seu dinheiro? De onde os clubes de futebol tiram tanto dinheiro para manter seus jogadores, cada um com um salário maior do que o outro? Por que não investir uma parte desse dinheiro na população que torce pro time também, não é mesmo? Enquanto o lixeiro, sim, o lixeiro, esse cara aí que passa na frente da sua casa e você nem nota, ganha um único salário mínimo, o Neymar está ganhando milhões de reais por mês e vai ganhar ainda mais agora que vai para a Europa. E o que o Neymar produz para a nossa sociedade além de um cabelo diferente a cada semana e que será imitado por milhares de jovens? Nada! Mas o lixeiro, esse que acabou de passar em frente a sua casa enquanto você não via, levou tudo aquilo que você não queria mais, contribuiu para a sua higiene e para a sua saúde. E se o lixeiro não passasse? E se ele não levasse seu lixo embora? O que você faria?? Seria um caos completo! Mas o lixeiro não está sendo reconhecido. Na verdade, o lixeiro muitas vezes é ignorado! E sabe por quê? Porque ele é lixeiro! Ele tem cheiro de lixo, ele está sempre sujo. Mas ele só está assim para ajudar a mim e a você! Ele pode ser um cara tão inteligente ou até mais inteligente do que você. Mas ele está ali, se submetendo a um trabalho que é considerado indigno pela grande maioria. Mas, na verdade, este é um trabalho sensacional. Registro aqui toda a minha admiração e o meu respeito por aqueles que fazem da minha vida uma vida limpa, uma vida digna e saudável. E digo mais, vocês merecem um salário maior, muito maior. Merecem muito respeito e merecem uma manifestação também! Afinal, vocês produzem para a nossa sociedade muito mais do que muita gente por aí, escondida atrás de livros e belas aparências.

          Realmente é revoltante! Se você é um brasileiro que acha que sabe fazer protesto, acho que já está na hora de você rever os motivos pelos quais você quer protestar. Exija algo que afete sua vida diretamente, que afete a vida de sua família, que afete a vida de seus amigos. Sim, eu tenho um amigo que é lixeiro. E eu gostaria que ele tivesse um salário mais digno, independente de existir a Copa do Mundo ou não. Acho que isso é possível! Mas enquanto isso as pessoas estão preocupadas em saber o que vai acontecer com o Neymar… É de se indignar!

A Última Vez

A gente nunca sabe… Quando vai ser o último sorriso, quando vai ter o último beijo, quando vai ganhar o último abraço, quando vai almoçar pela última vez, quando vai acordar pela última vez, quando vamos dormir e nunca mais acordar! É, a gente nunca sabe… Por isso sorria, beije, abrace, almoce e acorde todos os dias como se fosse a última vez, porque a gente nunca sabe!

O Homem, As Viagens – Drummond

O Homem, As Viagens

Carlos Drummond de Andrade

O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.

Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte – ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro – diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto – é isto?
Idem
Idem
Idem.

O homem funde a cuca se não for a júpiter
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
Do solar a col-
Onizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.

 

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Muito interessante! Enquanto não encontrarmos a essência de nós mesmos, nenhum lugar será bom o bastante para nós. O homem é um ser insatisfeito por natureza. Então pense: Quem eu sou? Onde eu quero chegar?

O homem aprende a ser homem

Desde a sua concepção até o momento de sua morte, o homem passa por profundas transformações biológicas e psicossociais. Os hormônios da mãe influenciam o feto em desenvolvimento. Alegrias, tristezas, hábitos alimentares, estilo de vida, preocupações, ansiedades… Tudo isto é transmitido ao feto, de forma involuntária. E neste momento o homem já aprende a ser homem.

            Após o nascimento, o bebê é cercado de uma série de cuidados e tabus, todos trazidos pela família, por amigos ou por outras pessoas próximas. Bebê só deve fazer isto desta forma, ou daquele outro jeito. Bebê não pode isso, bebê não pode aquilo. Deixem o bebê em silêncio, não façam barulho, não acendam as luzes, não abram as janelas… O meu bebê não se incomoda com barulho, o meu bebê não quer chupeta! Todos estes conceitos vão transformando o ser humano, dando ao bebê as características que os pais consideram aceitáveis na sociedade.

            Meu filho vai ser médico, o meu jogador de futebol. Minha filha vai ser bailarina, a minha veterinária… Toda a sociedade bombardeia constantemente as crianças com ideias e desejos, planos para o futuro, quase que obrigando uma criança a ser tudo aquilo que os adultos desejam. Não resta muito espaço para que a criança expresse sua opinião ou desenvolva seus anseios com base na sua pequena e limita experimentação da vida.

            Aula de piano, natação, balé, judô, inglês, espanhol, alemão, matemática, artes, pintura, teatro… A agenda de uma simples criança de 5 anos pode ser muito mais ocupada do que a de um CEO de uma empresa multinacional. Por que fazemos isso? Porque queremos que as crianças aprendam a ser adultos, que cheguem à maturidade cercada de oportunidades e vivências. E nos esquecemos de que precisam ser crianças…

            Na adolescência há a pressão para escolher uma profissão. Professores bem-intencionados e pais (alguns não tão bem intencionados assim) apresentam inúmeras profissões e possibilidades a um jovem de apenas 15, 16 anos e pedem insistentemente para que ele escolha um caminho. É feio não saber o que você quer ser! E, mais do que isso, é feio querer ser algo que a sociedade não valoriza, ter uma profissão que não é rentável… Quantas frustrações de professores e pais transferidos para jovens imaturos!

            O homem aprende a ser homem não pelas escolhas que faz, mas pelas ideias que absorve de outros, suas heranças culturais, seus desafios genéticos, sua personalidade inconstante, seus medos, suas coragens.

            E em algum momento de sua vida, o homem passa por uma crise, onde questiona tudo o que faz, tudo o que fez, tudo o que deixou de fazer. Comprou casa? Comprou carro? Constituiu família? Casou com a pessoa certa? Amou demais? Amou de menos? Ficou solteiro? Teve filhos? Estudou? Trabalhou? Gosta da profissão que tem? E se tivesse feito tudo diferente? E, por um momento, o homem pensa que fez as escolhas certas em sua vida. Ou não!

            E em seu leito de morte, um filme todo se repete em sua memória, as alegrias, as tristezas, as conquistas, as derrotas, as habilidades perdidas com a idade, os gostos que abriu mão por causa das circunstâncias da vida, os arrependimentos, os desafetos, a saudade de algo que já nem importa mais, um amor perdido, a amizade da infância… E o homem então fecha seus olhos, dá o seu último suspiro, com a certeza de que aprendeu a ser homem, não por causa de tudo o que lhe ensinaram, mas sim por causa de tudo o que viveu!