Organizações Aprendentes e Processos Criativos: Possibilidades e Limites

           Durante sua vida embrionária e fetal, o ser humano passa por profundas modificações biológicas que dão suporte à sua existência, garantindo sua sobrevivência em um meio adverso. Após o nascimento, o ser humano começa a receber influências do meio ambiente e da sociedade que o cerca. Alguns costumes e conceitos são sistematicamente inculcados e impostos como verdades absolutas. É na interação com o meio ambiente e com a sociedade que o homem aprende a ser homem, modificando suas estruturas mentais e criando modelos de aprendizagem.

          O homem aprende a ser homem ao se apropriar do mundo, ao desenvolver sua linguagem e suas habilidades motoras, transformando a si mesmo e à sociedade ao seu redor. O homem aprende a ser homem quando desaprende os conceitos que lhe foram impostos e desenvolve os seus próprios conceitos, suas próprias teorias sobre o mundo onde vive, através da experimentação e da vivência nas mais diversas situações. É digno de nota que o homem modifica o mundo e o mundo modifica o homem. É uma relação simbiótica.

           Para Piaget, o aprendizado ocorre de dentro para fora, através de mudanças biológicas e bioquímicas pré-disponíveis no indivíduo. De acordo com Bello, o conhecimento dos seres vivos não é inato nem é resultado de condicionamentos. O conhecimento é construído numa interação entre o meio e o indivíduo. Por isso a teoria de Piaget é uma teoria interacionista, pois defende que o indivíduo aprende na interação com o meio no momento em que ele atingiu um grau de desenvolvimento biológico propício para a aprendizagem, acentuando aspectos estruturais e leis bioquímicas universais.

          Por outro lado, Vygotsky defende que o aprendizado ocorre de fora para dentro, dando ênfase em sua teoria para o componente social, fator importante para a construção do conhecimento. Trata-se de uma teoria construtivista, onde o conhecimento é construído pelo indivíduo através da influência e da mediação da sociedade. Vygotsky (982-1984, v. IV, p. 281, apud IVIC, Ivan, 2010, p.16) escreveu:

          É por meio de outros, por intermédio do adulto que a criança se envolve em suas atividades. Absolutamente, tudo no comportamento da criança está fundido, enraizado no social. [E prossegue:] Assim, as relações da criança com a realidade são, desde o início, relações sociais. Neste sentido, poder-se-ia dizer que o bebê é um ser social no mais elevado grau.

          Desta forma, tem-se que o aprendizado humano ocorre de diversas formas, seja através do condicionamento, da interação com o meio e a sociedade ou através da adaptação de suas próprias estruturas internas e seus esquemas cerebrais.

          O aprendizado, além de ser parte da vida humana, é útil no sentido que é através dele que o homem modifica o mundo, quando escolhe uma profissão ou quando executa um trabalho. É nesta interação do trabalho que o homem modifica a sociedade e o mundo, quando ele produz algo que afetará direta ou indiretamente o meio onde vive. O homem é um ser cultural e como tal, precisa criar para se sentir aceito na sociedade.

          É no uso de suas diversas inteligências que o homem age criativamente, modificando a sua realidade, melhorando suas relações pessoais e sua relação com o trabalho e com as ferramentas que utiliza na sua sobrevivência. Neste sentido, as empresas buscam cada vez mais profissionais capazes de mudar o mundo, de se adaptarem a uma nova realidade de mercado cada vez mais exigente e com mudanças constantes, profissionais criativos, inovadores, resilientes.

          O mero saber já não é o bastante para satisfazer as necessidades das empresas. As organizações hoje buscam pessoas que tenham mais do que mero conhecimento, buscam pessoas capazes e competentes, aptas a aplicar os conhecimentos que sabem e, acima de tudo, buscam pessoas colaborativas, dispostas a aprender e ensinar dentro da organização. As empresas buscam, cada vez mais, profissionais que tenham suas habilidades e inteligências desenvolvidas, capazes de criar e inovar, participando ativamente dos processos criativos de uma empresa.

          E é neste ponto em que a Teoria das Inteligências Múltiplas, de Gardner, desponta como ferramenta de gestão para poder extrair o melhor de cada profissional, na medida em que a empresa entende que cada pessoa tem graus de habilidades e inteligências diferentes. De acordo com Gardner, existem sete tipos de inteligências, a saber:

  • Inteligência linguística;
  • Inteligência musical;
  • Inteligência lógico-matemática;
  • Inteligência espacial;
  • Inteligência cinestésica ou corporal;
  • Inteligência interpessoal;
  • Inteligência intrapessoal.

           A inteligência humana, nas suas mais diversas formas, é o produto intelectual das empresas, talvez um de seus bens mais valiosos, pois sem as ideias e pensamentos que movem seus funcionários, a empresa não pode executar nem produzir nada, seja produto ou serviço. E é neste cenário que as empresas hoje valorizam cada vez mais seus profissionais, adotando modelos de gestão que valorizem e reconheçam a colaboração de cada profissional dentro da empresa. É neste cenário que as empresas buscam criar ambientes colaborativos, ambientes propícios para a aprendizagem individual e organizacional.

          Todo o conhecimento individualizado não faz parte da organização, de forma que o conhecimento hoje precisa ser parte integrante da cultura e da expertise organizacional, daí surge o termo organizações aprendentes, pois as organizações precisam aprender com seus funcionários, com seus concorrentes, com seus clientes, com o próprio mercado. Uma organização aprendente é aquela que aprende com seus colaboradores, que aprende novas estratégias para permanecer no mercado, que aprende novas metas a cada dia, que muda constantemente, sem deixar de ser a mesma.

          E a fim de garantir o aprendizado da organização, é preciso que as empresas estejam atentas, cada vez mais, para os processos criativos e de inovação. Afinal, conforme já visto, o aprendizado ocorre de diversas maneiras, na interação com o meio e no desenvolvimento das próprias estruturas internas e dos esquemas individuais. Neste âmbito, as empresas precisam analisar suas estruturas internas e motivar seus funcionários a desenvolverem suas habilidades e inteligências, como forma de favorecer os processos de criação e desenvolvimento de produtos e serviços. Este é o primeiro passo para a inovação.

          Desde o momento em que um óvulo é fecundado até o momento em que o ser humano fecha os olhos em seu leito de morte, seu organismo vivo passa por diversas transformações e aprendizados. Todo o seu corpo e o seu cérebro trabalham ativamente, exaustivamente, na tentativa de aprender e desaprender, na busca constante do equilíbrio e da adaptação, na interação com o meio, com a sociedade, consigo mesmo. É no trabalho de suas mãos, no produto de suas inteligências que o homem aprende a ser homem, que o homem modifica o mundo e deixa a sua marca, por toda a humanidade. Ele nasce, ele cresce, ele estuda, ele aprende, ele se desenvolve, ele busca um emprego, ele contribui para o crescimento de uma empresa, ele produz, ele consome, ele cria. Não é de admirar que as empresas também estejam interessadas em aprender com este ser incrível, o homem!

          O mundo mudou devido à ação do homem. O mercado mudou, a educação mudou, as pessoas mudaram e as empresas precisam mudar, precisam se enquadrar neste cenário de conectividade social, em um mundo cada vez mais dinâmico e veloz, onde tudo perde o significado em questão de minutos, apenas com o surgimento de novas ideias, novos produtos, novos serviços. As organizações que desejam continuar ativas e competitivas no mercado precisam reconhecer a importância da aprendizagem e dos processos de criação e inovação, não só por parte de seus funcionários, mas sim como organização, como organismo inserido no mercado e no mundo, capaz de aprender, capaz de agir, de mudar e de encantar seus clientes, deixando sua marca registrada para sempre.

 

 

REFERÊNCIAS:

 

BELLO, José Luiz de Paiva. A Teoria Básica de Jean Piaget. Disponível em: <www.pedagogiaemfoco.pro.br/per09.htm>. Acesso em 04 mai. 2013.

 

CAMPOS, Márcia de Borba. Piaget. Disponível em: <http://penta.ufrgs.br/~marcia/piaget.htm&gt;. Acesso em 04 mai. 2013.

 

IVIC, Ivan. Coleção Educadores: Lev Semionovich Vygotsky. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me4685.pdf&gt;. Acesso em 04 mai. 2013.

 

GAMA, Maria Clara S. Salgado. A Teoria das Inteligências Múltiplas e suas Implicações para Educação. Disponível em: <http://www.homemdemello.com.br/psicologia/intelmult.html&gt;. Acesso em 04 mai. 2013.

 

PIRES, João Abreu Meyer. O processo de aprendizagem individual. Disponível em: <http://www.ead.unifei.edu.br/teleduc/cursos/diretorio/apoio_5561_34/O_PROCESSO_DE_APRENDIZAGEM_INDIVIDUAL.pdf&gt; Acesso em 04 mai. 2013.

 

STANO, Rita de Cássia M. T. A Teoria da Gestão do Conhecimento sob um Olhar Construtivista. Disponível em: <http://www.ead.unifei.edu.br/teleduc/cursos/diretorio/apoio_5561_34/A TEORIA DA GESTAO DO CONHECIMENTO SOB UM OLHAR CONSTRUTIVISTA.rtf>. Acesso em 04 mai. 2013.

 

STANO, Rita de Cássia M. T. O homem aprende a ser homem. Disponível em: <http://www.ead.unifei.edu.br/teleduc/cursos/diretorio/apoio_5561_34/O HOMEM APRENDE A SER HOMEM.htm>. Acesso em 04 mai. 2013.

 

STANO, Rita de Cássia M. T. O processo de aprendizagem. Disponível em: <http://www.ead.unifei.edu.br/teleduc/cursos/diretorio/apoio_5561_34/O PROCESSO DE APRENDIZAGEM.rtf>. Acesso em 04 mai. 2013.

 

STANO, Rita de Cássia M. T. Organizações Aprendentes. Disponível em: <http://www.ead.unifei.edu.br/teleduc/cursos/diretorio/apoio_5561_34/ORGANIZAÇÕES APRENDENTES.ppt>. Acesso em 04 mai. 2013.

 

STANO, Rita de Cássia M. T. Teoria Comportamental. Disponível em: <http://www.ead.unifei.edu.br/teleduc/cursos/diretorio/apoio_5561_34/TEORIA COMPORTAMENTAL.rtf>. Acesso em 04 mai. 2013.

 

STANO, Rita de Cássia M. T. Teoria das Inteligências Múltiplas. Disponível em: <http://www.ead.unifei.edu.br/teleduc/cursos/diretorio/apoio_5561_34/inteligencias Multiplas.html>. Acesso em 04 mai. 2013.

 

STANO, Rita de Cássia M. T. Teorias Fundamentais: Construtivismo e Sócio-Interacionismo. Disponível em: <http://www.ead.unifei.edu.br/teleduc/cursos/diretorio/apoio_5561_34/TEORIAS_CONSTRUTIVISTAS.ppt&gt;. Acesso em 04 mai. 2013.

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Organizações Aprendentes

          Ser uma empresa tradicional já não é mais o bastante para os dias de hoje. Empresas que seguem hoje os mesmos modelos de gestão de quando iniciaram suas atividades estão fadadas ao fracasso. O mercado hoje exige que as organizações sejam flexíveis e aprendam constantemente, mitigando a ideia de que as empresas não podem mudar nunca. Quem não muda não permanecerá no mercado por muito tempo.

          Uma organização aprendente é aquela que aprende com seus colaboradores, que aprende novas estratégias para permanecer no mercado, que aprende novas metas a cada dia, que muda constantemente, sem deixar de ser a mesma. Os elementos que caracterizam uma organização aprendente são:

  • Competitividade: o desejo de competir e se tornar melhor que seus concorrentes faz com que a empresa aprenda novas formas de trabalhar constantemente, a fim de superar a concorrência;
  • Flexibilidade: organizações flexíveis e com modelos de gestão menos rígidos tendem a aprender mais, a criar mais, a produzir mais, além de favorecer a adaptação diante das constantes mudanças do mercado;
  • Criatividade: surpreender o cliente, surpreender a concorrência, surpreender os próprios funcionários, é a criatividade permeando todas as atividades da empresa, o que garante maior vantagem competitiva perante a concorrência;
  • Inovação: fazer o inesperado, antever as necessidades dos clientes e produzir aquilo que ninguém imaginou, a inovação exige constante aprendizado para que os projetos sejam melhorados e executados, a ponto de se tornarem realidade;
  • Gestão do Conhecimento: difundir o conhecimento e a expertise adquirida é a melhor forma de transformar uma empresa, pois demonstra interesse tanto no mercado como no colaborador interno, o que facilita a motivação e transforma a empresa em um ambiente de inteligência colaborativa;
  • Gestão da Informação: o fluxo adequado de informações claras e precisas contribui para o bom andamento do serviço e para o senso de participação no grupo ou equipe. A Gestão da Informação deve criar ambientes colaborativos de ideias e novas práticas organizacionais, compartilhando os sucessos e as realizações de cada departamento, motivando outros a atuarem de forma a obter o sucesso também, eliminando barreiras e diferenças, criando sinergia entre as partes. A Gestão da Informação também deve ter o objetivo de criar agilidade na tomada de decisões, fornecendo os dados necessários para o planejamento e a decisão;
  • Liberdade: as pessoas que têm liberdade de expor suas opiniões aprendem mais e ensinam mais, o que pode garantir um fluxo de ideias criativas e inovadoras a todo o momento, o que favorece a inovação e aumenta a competitividade entre as empresas;
  • Autonomia: indivíduos que têm autonomia para tomar certas decisões e decidir como as coisas serão feitas, em geral, são indivíduos mais felizes e produtivos. Por isso as empresas devem conceder certo grau de autonomia a todos os seus colaboradores pois esta atitude favorece a criatividade e a inovação, na medida em que o indivíduo pode usar todo o seu conhecimento adquirido durante sua vida para criar soluções para seus problemas, o que pode garantir boas ideias para a empresa;
  • Planejamento e Organização: as empresas precisam saber onde desejam chegar e o que farão para atingir este objetivo e por isso é preciso existir um planejamento adequado das metas e a organização de toda a força de trabalho em prol das metas e objetivos a serem alcançados. Se cada um souber o quanto é importante e o que precisa fazer, as metas serão alcançadas com maior facilidade e a empresa aprenderá um novo modo de agir, um novo modo de fazer algo para se alcançar um objetivo;
  • Experimentação: todas as ideias devem ser vivenciadas e experimentadas, antes de decidir o que realmente funciona e o que não funciona. Quando não se tenta algo, pode ser que o indivíduo fica o resto de sua vida questionando o que teria acontecido se ele tivesse feito as coisas daquele modo. Nas empresas não é diferente. As empresas precisam fornecer ambiente acolhedor para que as ideias sejam expostas e colocadas em prática. Esta é uma das principais formas de a empresa aprender algo, visto que o modelo de ensino baseado na narrativa de conceitos e conhecimento já demonstrou não ser eficaz, fazendo com que os indivíduos “aprendam” o conteúdo apenas momentaneamente;
  • Reflexão e feedback: os funcionários precisam refletir individualmente e em grupo a fim de saber quais os rumos que precisam tomar no caminho do crescimento pessoal e organizacional. Após a reflexão, é preciso que haja ambiente propício para feedback, tanto por parte da empresa para o funcionário como por parte do funcionário para a empresa. É nesta interação e troca de informações que as relações são melhoradas e fortalecidas, gerando comprometimento de ambas as partes.

           Para quem quiser se aprofundar no tema da aprendizagem, sugiro o seguinte artigo, do Professor Marco Antonio Moreira, Unidades de Ensino Potencialmente Significativas – UEPS, disponível no link: http://www.if.ufrgs.br/~moreira/UEPSport.pdf