O homem aprende a ser homem

Desde a sua concepção até o momento de sua morte, o homem passa por profundas transformações biológicas e psicossociais. Os hormônios da mãe influenciam o feto em desenvolvimento. Alegrias, tristezas, hábitos alimentares, estilo de vida, preocupações, ansiedades… Tudo isto é transmitido ao feto, de forma involuntária. E neste momento o homem já aprende a ser homem.

            Após o nascimento, o bebê é cercado de uma série de cuidados e tabus, todos trazidos pela família, por amigos ou por outras pessoas próximas. Bebê só deve fazer isto desta forma, ou daquele outro jeito. Bebê não pode isso, bebê não pode aquilo. Deixem o bebê em silêncio, não façam barulho, não acendam as luzes, não abram as janelas… O meu bebê não se incomoda com barulho, o meu bebê não quer chupeta! Todos estes conceitos vão transformando o ser humano, dando ao bebê as características que os pais consideram aceitáveis na sociedade.

            Meu filho vai ser médico, o meu jogador de futebol. Minha filha vai ser bailarina, a minha veterinária… Toda a sociedade bombardeia constantemente as crianças com ideias e desejos, planos para o futuro, quase que obrigando uma criança a ser tudo aquilo que os adultos desejam. Não resta muito espaço para que a criança expresse sua opinião ou desenvolva seus anseios com base na sua pequena e limita experimentação da vida.

            Aula de piano, natação, balé, judô, inglês, espanhol, alemão, matemática, artes, pintura, teatro… A agenda de uma simples criança de 5 anos pode ser muito mais ocupada do que a de um CEO de uma empresa multinacional. Por que fazemos isso? Porque queremos que as crianças aprendam a ser adultos, que cheguem à maturidade cercada de oportunidades e vivências. E nos esquecemos de que precisam ser crianças…

            Na adolescência há a pressão para escolher uma profissão. Professores bem-intencionados e pais (alguns não tão bem intencionados assim) apresentam inúmeras profissões e possibilidades a um jovem de apenas 15, 16 anos e pedem insistentemente para que ele escolha um caminho. É feio não saber o que você quer ser! E, mais do que isso, é feio querer ser algo que a sociedade não valoriza, ter uma profissão que não é rentável… Quantas frustrações de professores e pais transferidos para jovens imaturos!

            O homem aprende a ser homem não pelas escolhas que faz, mas pelas ideias que absorve de outros, suas heranças culturais, seus desafios genéticos, sua personalidade inconstante, seus medos, suas coragens.

            E em algum momento de sua vida, o homem passa por uma crise, onde questiona tudo o que faz, tudo o que fez, tudo o que deixou de fazer. Comprou casa? Comprou carro? Constituiu família? Casou com a pessoa certa? Amou demais? Amou de menos? Ficou solteiro? Teve filhos? Estudou? Trabalhou? Gosta da profissão que tem? E se tivesse feito tudo diferente? E, por um momento, o homem pensa que fez as escolhas certas em sua vida. Ou não!

            E em seu leito de morte, um filme todo se repete em sua memória, as alegrias, as tristezas, as conquistas, as derrotas, as habilidades perdidas com a idade, os gostos que abriu mão por causa das circunstâncias da vida, os arrependimentos, os desafetos, a saudade de algo que já nem importa mais, um amor perdido, a amizade da infância… E o homem então fecha seus olhos, dá o seu último suspiro, com a certeza de que aprendeu a ser homem, não por causa de tudo o que lhe ensinaram, mas sim por causa de tudo o que viveu!

 

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